Desabafo de Terapeuta
Raramente ouço meus colegas terapeutas se queixarem de que suas vidas não têm significado. A vida de terapeuta é uma vida de entrega na qual transcendemos diariamente nossos desejos pessoais e voltamos o nosso olhar para as necessidades e crescimento do outro. Obtemos prazer não apenas pelo crescimento do nosso paciente, mas também do efeito da reverberação — a influência salutar que nossos pacientes têm sobre aqueles com quem eles têm contato em suas vidas.
Somos guardiões de segredos. Todos os dias os pacientes nos honram com seus segredos, freqüentemente nunca antes compartilhados. Receber tais segredos é um privilégio concedido a bem poucos. Os segredos proporcionam uma visão de bastidores da condição humana, sem afetações sociais, encenação de papéis, bravatas ou poses de palco. Aos que são guardiões de segredos é concedida uma lente esclarecedora pela qual podem ver o mundo — uma visão com menos distorção, negação e ilusão, uma visão da maneira como as coisas realmente são.
Quando recorro a outros que dispõem do saber de que todos nós (terapeuta e paciente, igualmente) carregamos o fardo de segredos dolorosos — culpa por atos cometidos, vergonha por não ter agido, anseios de ser amado e apreciado, vulnerabilidades profundas, inseguranças e medos —, eu me aproximo deles. Ser um guardião de segredos tornou-me, com o passar dos anos, mais gentil e tolerante. Não apenas o nosso trabalho nos dá a oportunidade de transcender a nós mesmos, de evoluir e crescer e de sermos abençoados com uma clareza de visão do verdadeiro e trágico conhecimento da condição humana, como também nos oferece muito mais.
Somos desafiados intelectualmente. Tornamo-nos exploradores imersos na mais grandiosa e mais complexa de todas as buscas — o desenvolvimento e a preservação da mente humana. De mãos dadas com os pacientes, saboreamos o prazer das grandes descobertas — a experiência do "arrá!" —, quando fragmentos ideacionais discrepantes subitamente deslizam suavemente, unindo-se com coerência. Em outras ocasiões, somos parteiras do nascimento de algo novo, libertador e enobrecedor. Vemos nossos pacientes desvencilharem-se de padrões contraproducentes, desprenderem-se de antigos ressentimentos, desenvolverem entusiasmo pela vida, aprenderem a nos amar e, através deste ato, tornarem-se carinhosos com os outros. É uma satisfação ver outros abrirem as torneiras de suas próprias fontes da sabedoria. Às vezes, sinto-me como um guia que escolta os pacientes através dos cômodos de sua própria casa. Que prazer é vê-los abrirem as portas para os cômodos em que nunca entraram antes e descobrirem novas alas de sua casa contendo partes em exílio — partes sábias, belas e criativas da identidade. Algumas vezes, o primeiro passo desse processo está no trabalho dos sonhos, quando o paciente e eu ficamos maravilhados com as construções engenhosas e imagens luminosas que emergem da escuridão. Imagino que professores que ensinam a escrever com criatividade devam passar por experiências semelhantes.
Por fim, sempre considerei um privilégio extraordinário pertencer à venerável e honrada agremiação dos que curam. Nós, terapeutas, fazemos parte de uma tradição que remonta não apenas aos nossos ancestrais imediatos da psicoterapia, começando com Freud e Jung, e todos os ancestrais deles — Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard —, mas também Jesus, Buda, Platão, Sócrates, Galeno, Hipócrates e todos os outros grandes líderes religiosos, filósofos e médicos que, desde o início dos tempos, ocuparam-se de cuidar do desespero humano.
Cristina Neves
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